sábado, 12 de agosto de 2017

1977-08-00 - O Tempo e o Modo Nº 125

EDITORIAL
SÓ OS TRABALHADORES PODEM VENCER A CRISE

Enquanto os partidos da burguesia não podem esconder por mais tempo a sua falência política e procuram uma saída bonapartista para a crise — que é real e política — da sociedade portuguesa, os órgãos da comunicação social mimoseiam os trabalhadores com os discursos e intervenções dos governantes e principais responsáveis pelo actual quadro institucional burguês, repetindo a velha melodia do capital, tão antiga como ela, de que é preciso trabalhar mais e produzir mais.

Não é certamente por fatalidade histórica ou por condão feiticista das cadeiras de S. Bento que todos os políticos burgueses, que se sentam à mesa do orçamento, sejam eles fascistas ainda que filhos de gente modesta e honrada que os mandou educar nos seminários da padralhada, liberais cursados em Oxford ou Harvard, «socialistas» da undécima hora de passado «antifascista» principalmente passado no estrangeiro e revi­sionistas encarteirados pelas melhores escolas social-fascistas do reino de Brejnev, proclamam na sua segunda hora de Poder que é preciso trabalhar mais e produzir mais.
Naturalmente, referem-se aos operários e demais trabalhadores que outra coisa não têm feito na vida senão trabalhar. Os ministros da (des)educação, pela peculiaridade do seu mister, têm evidentemente nos seus pontos de mira os estudantes, esses têm de estudar mais e melhor a ideologia caduca e as teorias reaccionárias com que a burguesia justifica a exploração desenfreada da força de trabalho.
Produzir mais na sociedade capitalista é um imperativo real das leis de desenvolvimento do próprio capitalismo e daí que por reflexo na superstrutura política e ideológica seja fatal que todos os candidatos a exploradores repitam a mesma estafada cantilena. As leis da concorrência capitalista impelem cada capitalista individual a produzir incessantemente cada vez uma maior quantidade de mercadorias. Seja qual for a potência dos meios de produção com que cada capitalista entra em campo, logo que a concorrência os generaliza perde toda a vantagem inicial sobre os rivais, restando-lhe para continuar a ganhar o mesmo que anteriormente produzir (fazer produzir) mais e mais.
E para produzir mais e mais recorre simultaneamente a dois processos; à introdução de nova maquinaria, concentrando e centralizando capitais e ao despedimento da força de trabalho que é substituída pelas máquinas, ao mesmo tempo que intensifica o trabalho dos operários que continuam.
Transplantando as leis da concorrência capitalista para o mercado mundial, o resultado é o mesmo, só que numa escala muito mais ampliada. Os monopólios imperialistas e social-imperialistas travam entre eles e entre si uma guerra concorrencial encarniçada, esmagando as pequenas economias nacionais dos povos que lhe entraram na órbita.
No nosso país, onde cerca de 12% de tudo o que se produz dentro das nossas fronteiras é destinada à venda fora delas e por cada 100$00 gastos pelo cidadão português saem 27$00 para o estrangeiro, tal é a relação entre as nossas importações e a Despesa Nacional, as leis da concorrência intermonopolista no mercado mundial não deixam de marcar vincadamente com o seu selo a crise actual que se agrava.
Produzir mais para sair da crise tem como pressuposto que a crise é provocada por não haver produção, mas abram-se os jornais dos tempos da crise e leia-se: «Os têxteis: um sector em crise»; «Indústria de cortiça em crise: milhares de toneladas sem comprador»; «A indústria conserveira em crise devido à concorrência dos marroquinos»; «A indústria do tomate vê invadidos os seus mercados tradicionais, nomeadamente pelos italianos»; «A colheita do vinho do ano passado ainda se encontra nas adegas»; «A indústria de tipografia ressente-se com a falta de papel, enquanto só em 1976 foram vendidos ao estrangeiro 3,5 milhões de contos de pastas para o fabrico de papel»; «O sector das electrónicas em crise: multinacionais encerram empresas e despedem trabalhadores», etc., etc.
O peso dos sectores citados no conjunto da produção nacional e do emprego é demasiado grande para se tomar como arbitrária e exagerada a amostra escolhida, só o sector dos têxteis, por exemplo, representa cerca de 18% da produção total da indústria e ocupa cerca de 14 dos trabalhadores empregados em toda a indústria portuguesa.
Produzir mais e exportar mais Não têm razão os srs ministros e secretários do capital, a crise não é de falta de produção, nem de exportações nem de capitais. Ainda recentemente o Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos declarou existirem naquela Caixa 20 milhões de contos parados sem aplicação. A crise é de sobreprodução relativa e de sobreacutnulação de capitais. A economia produz demasiado para o mercado estrangeiro e em demasia tomarem para o mercado interno relativamente ao poder de compra dos trabalhadores e às suas necessidades.
Neste meio ano de 1977 a produção de cereais registou um decréscimo de 30% e a pecuária de 13%. Enquanto  a produção de madeira e cortiça acusava um aumento de 23% e a de tabacos 20%. Isto significa produzir menos e importar mais e produzir mais e exportar mais ou menos.
Só a transformação das relações de produção capitalistas poderá resolver a contradição entre a sobreprodução de mercadorias, por um lado e o subconsumo das massas, por outro. Os operários adquiriram nestes últimos três anos uma rica experiência de luta contra o capital. Eles encontraram pela frente as «batalhas de produção» do companheiro Vasco e da Intersindical, as «medidas de austeridade» do Governo PS e agora o «país real» do produzir mais e melhor. Formas diversas para uma mesma política do capital privado e burocrático de Estado.

A essa política dos exploradores e às trapaças da Intersindical e do partido social-fascista que dizem que a crise não se pode resolver sem os trabalhadores, na verdade nenhum capitalista pode aumentar a exploração sem os trabalhadores para explorar, os operários devem responder com o Controlo Operário da produção, distribuição e consumo sob a bandeira de que SÓ OS TRABALHADORES PODEM VENCER A CRISE!

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